Um mao negócio

O Acordo de Cooperação Interregional entre o Mercosul e a União Européia

Berlim 2004

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Introdução

A   União   Européia   e   o   Mercosul   negociam   atualmente   um   “Acordo   de   Cooperação
Interregional” cujo tema principal é a constituição de uma zona de livre comércio em etapas,
que deverá ter início partir do ano de 2005. As negociações possivelmente já serão concluídas
em final de outubro do presente. Esse é ao menos o objetivo que a UE pretende alcançar sem
falta,  para anteceder-se à conclusão das negociações paralelas sobre a zona de livre comércio
panamericana ALCA, alavancadas pelos EUA. As negociações entre a UE e o Mercosul não
são, portanto, a expressão de fortes interesses econômicos, mas também de uma corrida entre
concorrentes imperialistas. 
O lado europeu tem certamente muito a perder. Isso já ficou evidente no exemplo do acordo
de livre comércio norte-americano NAFTA entre os EUA, o Canadá e o México, que entrou
em  vigor  em  1994.  Devido  ao  mais  forte  vínculo  entre  o  México  e  os  EUA,  as  empresas
européias  perderam  participações  consideráveis  no  mercado  mexicano.  Se  a  participação  de
produtores e exportadores europeus em 1990 ainda era de 17,5 %, essa praticamente caiu pela
metade  em  1999,  com  9%  (Bouzas  2003).  A  UE  pretende  evitar  esse  efeito  de  desvio
comercial a qualquer custo no Mercosul, visto que as empresas européias ainda têm um papel
predominante  em  relação  aos  seus  concorrentes  norte-americanos  no  que  se  refere  ao
comércio e investimentos diretos. O efeito de um desvio comercial é considerado um ameaça,
inclusive pelos governantes do Mercosul, uma vez que a possível conclusão do contrato para
a  ALCA  acarretaria  em  uma  crescente  dependência  unilateral  do  mercado  norte-americano.
Ao contrário dos demais países  latino-americanos, as exportações no cone sul até o momento
estão muito menos direcionadas ao mercado norte-americano. 
Apesar  dessa  aparente  objetividade  nas  negociações  de  uma  zona  de  livre  comércio
transatlântica  entre  a  União  Européia  e  o  Mercosul,  é  mesmo  assim  necessário  questionar  o
caráter de tal acordo. Os países do Mercosul terão realmente vantagens com esse contrato? O
Acordo  de  Cooperação  incentivaria  o  desenvolvimento  econômico  e  social?  Poderíamos  até
mesmo  esperar  uma  contribuição  para  a  redução  das  enormes  diferenças  na  distribuição  de
renda  existente  nos  países  do  Mercosul?  Essas  questões  não  podem  ser  respondidas  sem  a
consideração  de  uma  inclusão  específica  dos  países  do  Mercosul  na  divisão internacional do trabalho. Essa contribuição é fundamentada na seguinte tese, de que 

  1. A  divisão internacional do trabalho transformou-se sensivelmente na década de 90,
  2. Os  países  do  Mercosul  estão  inseridos  em  redes  de  produção  internacionais  estruturadas hierarquicamente de forma precária,
  3. O Acordo de Cooperação entre a UE e o Mercosul garante e fortifica a inclusão subalterna na distribuição internacional de tarefas.

No que se refere à relação de domínio é aparentemente possível mobilizar um apoio público
suficiente  para  a  liberalização  do  comércio  e  a  integração  no  mercado  mundial,  tanto  no
Mercosul,  como  também  na  Europa.  Nesse  contexto,  determinados  partidos  de  capital  de
ambos os lados conseguem vender os seus interesses particulares como se fossem interesses
públicos.  Uma  grande  maioria  no  Mercosul  e  na  Europa  acredita  de  fato,  que  o  incentivo  de
setores orientados na exportação seria útil para a maior parte da população. O real efeito da
distribuição do projeto de liberação, a concentração forçada de poder e riqueza nas mãos de
poucos, são tendencialmente perdidas de vista. Nesse contexto, percebemos que essa técnica
de domínio é especialmente eficaz na Europa. O fato, de que a aplicação de enormes meios
financeiros para o aumento da competitividade internacional também irá gerar perdedores nos
países da EU quase não alcança a consciência pública. 
O  desafio  para  os  movimentos  sociais  de  ambos  os  lados  do  Oceano  Atlântico  consiste,
portanto, em evidenciar e deslegitimar o caráter do projeto de livre comércio. Temos que dar
nome  aos  ganhadores  e  perdedores.  Só  assim  será  possível  romper  o  amplo  apoio  que  o
projeto de liberação recebe. Com esse trabalho pretendemos contribuir para isso.